Sessão Solene da APIENG: Outorga de Láureas Honoríficas e Discurso Histórico do Sócio Benemérito Felipe Mendes

A Academia Piauiense de Engenharia (APIENG) realizou, no dia 08 de maio de 2026, a sua Sessão Solene de Outorga de Láureas Honoríficas, um evento marcado pelo reconhecimento a personalidades que dedicaram suas trajetórias ao desenvolvimento do Estado do Piauí.

Em cumprimento às diretrizes de transparência da Academia (conforme o Edital de Convocação e a Resolução Nº 05/2025), a APIENG disponibiliza publicamente os registros oficiais da cerimônia.

O grande destaque da noite foi o pronunciamento do economista, escritor e acadêmico Felipe Mendes de Oliveira, agraciado com o título de Sócio Benemérito. Em sua fala, Mendes relembrou os desafios históricos da infraestrutura piauiense, sua atuação direta em projetos estruturantes — como rodovias, barragens e eletrificação — e a fundamental parceria multidisciplinar com os profissionais da engenharia ao longo de décadas.

Confira abaixo a íntegra do discurso proferido pelo homenageado, bem como os links para o download dos documentos oficiais da sessão.

Discurso na Íntegra

Agradecimento à Academia Piauiense de Engenharia pela concessão do Título de Sócio Benemérito, em solenidade realizada em Teresina, em 8.5.2026.

Por Felipe Mendes

Eu sou contemporâneo da construção da barragem de Boa Esperança – inaugurada em 1970 que conheci em obras, durante uma excursão quando estudante do Liceu Piauiense. Alguns colegas de turma se motivaram para estudar Engenharia, ou confirmaram a vocação. Por falta dos pré-requisitos da matemática, eu me inclinei para a Economia, já preocupado com o desenvolvimento do Piauí.

Eu sou contemporâneo da instalação da Universidade Federal do Piauí, em 1971, mas no meu tempo de estudante só existiam quatro Faculdades em Teresina: Direito, Filosofia, Odontologia e Medicina. Nenhuma delas me atraía, ao que meu pai, muito espirituoso, disse que eu era esperto ao escolher o curso de Economia para estudar fora. Durante o cursinho pré-vestibular, em Fortaleza, eu enviava cartas a meu pai pedindo aumento da mesada. A inflação era alta; o telefone, uma raridade, e ele comentava:

  • O Felipe foi estudar Economia e por enquanto só aprendeu a gastar… Lembranças de acontecimentos difíceis, que o tempo tornou divertidos.

Eu fui aprovado no vestibular de Economia no ano em que houve uma mudança da legislação, que introduziu o sistema de créditos na grade curricular. Por sorte, a Faculdade oferecia duas turmas – uma no turno da manhã e outra à noite com o que eu pude acelerar os estudos e receber o diploma com antecedência de seis meses. Em seguida, tive a sorte de ser aprovado para estágio no departamento de estudos técnicos do Banco do Nordeste, no turno da tarde, com um salário maior do que a mesada, e pude conhecer um piauiense, Pádua Ramos, escolhido Secretário de Planejamento do primeiro governo Alberto Silva. Antes de sua posse, em março de 1971, ele me garantiu o contrato logo no dia seguinte à minha formatura, em julho daquele ano.

De volta a Teresina, trabalhei com Pádua Ramos, uma grande figura humana e chefe competente, com quem aprendi o que a Faculdade nem o estágio do Banco do Nordeste me ensinaram, como escrever um oficio para o Ministro do Planejamento conciso, para ser lido e entendido, e bem fundamentado, para ser atendido. Aprendi também a cumprir as tarefas sem consultar o relógio nem o calendário, em que algumas vezes valia a escala de trabalho 7×0.

Recém-formado, um dos meus primeiros trabalhos foi o de coordenar a elaboração do projeto para financiamento, pelo Banco do Nordeste, da pavimentação da PI-112, de Teresina a União (Estrada do Babaçu), com a participação do Eng. Antônio Gomes Neto, que anos depois veio a ser Diretor-Geral do DER (Departamento de Estradas de Rodagem). Por força da minha posição de chefe da assessoria de Pádua Ramos, eu tratava diretamente com outros secretários do governo, como o de Obras Públicas (Murilo Rezende) e o Diretor-Geral do DER (Laerte Araújo), adiantando assuntos para serem apresentados, por eles, ao Secretário de Planejamento ou ao Governador.

Mais tarde, eu já no cargo de Secretário de Planejamento, havia um Programa de investimentos chamado POLONORDESTE (Programa de Desenvolvimento Integrado do Nordeste), com investimentos em eletrificação rural, estradas vicinais, assistência técnica e extensão rural, bem como educação e saúde no meio rural. A equipe técnica de coordenação desse Programa era multidisciplinar, formada por agrônomos, veterinários, engenheiros e técnicos das Secretarias de Educação e da Saúde. No trato com os engenheiros, principalmente os que aprenderam a usar a régua de cálculo, o trabalho corria mais fácil, mais objetivo, mas com o pessoal da área de ciências humanas e sociais, a conversa demorava, e às vezes eu me impacientava, com vontade de repetir o que um executivo de uma empresa privada diria para seus funcionários, nas reuniões:

  • Eu não sou o chefe; apenas um colega de trabalho que sempre tem razão.

Certo dia, eu li uma reportagem sobre a seca no Nordeste, no jornal O Estado de São Paulo, em que era entrevistado o hidrogeólogo cearense Aldo Rebouças, da USP. Consegui seu contato, fiz o convite e ele veio participar de um Seminário na UFPI, em 1981, com a SEPLAN custeando uma parte das despesas, que se tornou o primeiro evento da Universidade a tratar desse problema. Em sua palestra, ele ensinou que o Piauí tem a terceira maior disponibilidade hídrica do Nordeste, depois da Bahia e do Maranhão, e que a área mais crítica em relação às chuvas representa 41,5% do território, recebendo 28,8% das chuvas, enquanto nos restantes 58,5% da área, as precipitações alcançam 71,2%. Aldo Rebouças calculou que o volume total da água das chuvas que caem no Piauí, em média, é da ordem de 223,7 bilhões de m³/ano, dos quais 90% são consumidos pela biomassa vegetal e pela evaporação, restando 10%, ou seja, 22,4 bilhões de m³ d’água que fluem pela rede hidrográfica, ou penetram no subsolo ¹. Assunto de engenheiros…

Também, nessa época, eu solicitei aos assessores que organizassem com a UFPI o primeiro curso de desenvolvimento rural integrado, para qualificar as equipes do governo envolvidas com o POLONORDESTE. Em contrapartida ao financiamento da SEPLAN, eu pedi que o trabalho de fim de curso fosse a elaboração de um PDRI (Projeto de Desenvolvimento Rural Integrado) para a região do vale do Itaueira, o qual foi aprovado pelo BNDES e executado no governo seguinte. Entre suas metas, a construção da barragem de Poços, em Itaueira, a primeira obra do gênero do governo do estado.

Em seguida, veio o Projeto Vale do Parnaíba, coordenado por mim, que teve recursos de cerca de US$ 100 milhões, dos quais US$ 29 milhões financiados pelo Banco Mundial, e o restante com recursos da União, a fundo perdido, com a prioridade da questão fundiária, o que exigiu, de início, a criação do Instituto de Terras do Piauí INTERPI, para enfrentar o problema das terras devolutas, a maioria com potencial produtivo. Isso fez crescer o mercado para os engenheiros agrimensores e outras especialidades da engenharia.

Como Secretário e mais tarde deputado federal, viabilizei os recursos para a pavimentação da rodovia PI-143, no trecho de Simplício Mendes a Oeiras.

Por fim, outra experiência importante. Na Câmara dos Deputados, em 1989, recebi o relatório comemorativo dos 80 anos do DNOCS e, ao contrário da maioria dos colegas, eu o li com interesse técnico, para constatar, desolado, que o Piauí tinha apenas 1,1% da água acumulada pelos açudes construídos no Nordeste, ou seja, 185,8 milhões de m³ d’água, enquanto o Ceará tinha 40,0%, equivalentes a 7,2 bilhões de m³ d’água. No Piauí, a água das chuvas escoando para os rios, e os rios correndo para o mar…

Em resumo, e como resultado das emendas aprovadas na lei orçamentária da União, vieram as barragens de Piracuruca, de Pedra Redonda (que agora se chama Joaquim Mendes, em Conceição do Canindé) e Mesa de Pedra, em Valença, e o açude do Bezerro, em José de Freitas, sem mencionar as demais barragens construídas desde então, por iniciativa dos colegas deputados Paes Landim e B. Sá, entre outros. Na virada do século, e do milênio, a capacidade de armazenamento total tinha sido elevada para 1,8 bilhão de m³ d’água, no Piauí – ou seja, 10 vezes mais a quantidade de 1989 – mas o Ceará construiu o açude Castanhão, o maior do Nordeste, e manteve sua grande vantagem. Agora, é certo dizer que o principal destino dos rios não é o de chegar ao mar, mas o seu aproveitamento durante o caminho, com o abastecimento d’água, a irrigação, a piscicultura, o lazer…

Ao Plano Nacional de Viação, eu aprovei, em 1994, uma emenda transformando a PI-254, no trecho Gilbués-Santa Filomena, em um segmento da BR-235, que foi asfaltado e logo fez-se necessária a construção da ponte sobre o rio Parnaíba, ligando Santa Filomena a Alto Parnaíba.

Ainda no setor rodoviário, aprovei emendas que destinaram recursos para a pavimentação da BR-020, BR-343 e restauração da BR-135. Em 1992, eu consegui, no Banco Mundial, os recursos para implantação da Linha de Transmissão em 69 KV, de Piripiri a Parnaíba, que sofria com a falta de energia elétrica.

Esses são alguns exemplos do que foi a minha contribuição para o desenvolvimento do Piauí, e por certo a razão da escolha do meu nome para o honroso título de Sócio Benemérito da Academia Piauiense de Engenharia.

Sobre eu ter tido sorte, eu lembro o ditado:

  • Quanto mais você trabalha, mais você tem sorte.

É bom receber homenagens, especialmente no meu retorno à planície. Melhor ainda é merecê-las. Obrigado!

Nota: 1 Ver MENDES, Felipe. Economia e desenvolvimento do Piauí. 2. ed. Teresina: EDUFPI, 2019, p. 52.

Documentos Oficiais para Download:

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